terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Minha história com a fotografia começou aqui (26/10/2014)



Senta que lá vem história!
Sou filho de uma empregada doméstica, a Dona Cida e do motorista de caminhão, o "Bertão". Sou o segundo dos quatro filhos. A vida não foi era nada fácil para os  meus pais.  Eles davam um duro danado para sustentar a família, e eu sempre dizia a mim mesmo que queria arranjar um emprego para ajuda-los. E como eu faria? Poderia trabalhar, ganhar dinheiro para ajudar nas despesas domésticas. E foi o que fiz. Em 1973, no início de fevereiro, eu tinha 13 anos, quando surgiu a oportunidade de trabalhar com carteira assinada e um salário era de CR$ 134,10 (cento e trinta e quatro cruzeiros e dez centavos). Na época uma verdadeira fortuna para um menino. Tínhamos um vizinho, o Luiz Túlio, que era contador do Studio Eurydes, na época o mais conceituado estúdio fotográfico de Campinas (nos dias de hoje se conhece por Foto,  mas naquela época era Studio com S mudo mesmo, para dar mais sofisticação). Ele ficava na esquina das ruas General Osório e Dr. Quirino. O Sr. Luiz disse que o estúdio estava precisando de um garoto para limpeza e perguntou se me interessava. Nunca gostei de estudar (espero que minha filha não leia isso), eu queria era fazer algo e ganhar por isso. Quando disse a minha mãe que iria abandonar os estudos para trabalhar quase levei uma surra. Mas disse que todo o dinheiro que ganhasse passaria pra ela e voltaria aos estudos mais tarde. Ela olhou bem pra mim e disse que meu futuro seria puxando uma carroça. Na época não entendi bem o que ela queria dizer com "aquilo".
Para encurtar a história, consegui convencer minha mãe que eu iria largar os estudos para poder trabalhar e ajudar nas despesas, com a promessa de voltar mais tarde para terminar os estudos. Acho que foi difícil para ela tomar a decisão, as despesas cada vez aumentavam mais (tudo era comprado fiado e anotado em uma caderneta). Quando chegava o dia de acertar as contas era um problema porque o salário de ambos era uma merreca. Nós nunca conversamos sobre isso, mas vendo os olhos dela mareados eu tinha certeza absoluta que ela queria mesmo era me ver na escola. Mas era um dinheiro que chegava oportunamente e em boa hora, e além do mais eu havia prometido voltar. lembro que recebia o contra-cheque do meu salário dentro de um envelope que entregava para minha mãe sem abrir. 
Até então quando me perguntavam o que queria ser quando crescer, a minha resposta era sempre: piloto de avião. Por ironia só fui descobrir mais tarde que eu era e ainda sou um bunda mole com essa história de voar, (mas venho tendo avanços significativos nesse quesito).
Despertei para a que viria a ser a minha profissão quando fui trabalhar Studio Eurydes. No inicio eu era apenas um faxineiro, mas não um faxineiro qualquer, eu era o melhor faxineiro  da cidade, fazia tudo com muito capricho. Afinal eu poderia ser avaliado e de repente poderia pintar um aumento. Eu deixava os banheiros impecáveis. O salão da loja era de piso frio, e nele eu passava, todo dia, um pano com desinfetante Pinho Sol, e encerava todas as sexta-feiras e depois passava escovão.
Depois de alguns meses me chamaram para ajudar a cuidar das fotos enquanto elas eram lavadas dentro de um quarto escuro com luzes vermelhas. A primeira vez que entrei naquele quarto fiquei meio desconfiado. Que "porra" de lugar escuro era aquele? E foi então que eu vi pela primeira vez uma fotografia sendo revelada. E aí meus amigos, que piloto de avião que nada, a partir desse dia eu queria ser fotógrafo, então comecei a mexer as fotos na banheira de água como ninguém jamais mexeria, fazia tudo com muita vontade. Mas eu não podia trabalhar só no laboratório, afinal eu era o faxineiro. Senti que não tinha muita esperança, eles queriam contratar alguém para aprender e me coloquei a disposição e ainda disse que poderia fazer meio período na faxina e meio como laboratorista, e eles aumentariam um pouco o salário e fechamos negócio. Essas portas de aço que vocês estão vendo na foto eram vitrines e a frente também era toda de vidro. E eu limpava com álcool duas vezes ao dia, e olha que nem ficava incomodado quando as normalistas que saiam da Escola Carlos Gomes por volta da hora do almoço e me viam limpando os vidros ou varrendo a calçada.
Nesse lugar trabalhei com verdadeiros mestres na arte fotográfica e faço questão de citar alguns nomes: o Sr. Carvalho, era um excelente retocador e sabia quando uma foto estava boa. Quando comecei a ampliar as fotos eu levava para ele aprovar e ele sempre mandava (não pedia não), faça outra, e mais outra e muito mais outras e foi assim que aprendi. Sr. Gumercindo sacava tudo de luz ao ponto de brincar com elas e o resultado das fotos eram Duk7. Lenir era retocadora de negativo, a mineira era mais competente que o Pintangui para fazer uma plástica com seus lápis, pincéis e raspadeiras. O Liraucio Girardi foi o cara que me apresentou a primeira Rolley Flex 6 X 6, Mammya RB 67, Yaschica Mat 6 X 6. Foi ele o cara que me entregou a Rolley, durante um casamento na Igreja do Liceu, e disse: acho que você gosta disso, vai lá e mostre  o que você pode fazer. Quando apertei o disparador pela primeira vez me senti muito importante e realmente gostei daquilo,  fotografei um filme com 12 poses.  Claro que o resultado foi um horror. Depois vieram os toques, as dicas, os macetes, "ao invés de fazer assim, faça desse jeito o resultado vai ser melhor, procure a foto ela está na sua frente, olhe de varias formas as ene possibilidades, encontre o melhor ângulo, faça diferente, olhe diferente, pense diferente". Como o treino remunerado era nos casamentos, nos finais de semana, todos os meus amigos diziam que eu só ia em festas. Na verdade eu estava era trabalhando. Ajudava a iluminar, aprendia a fotografar e ganhava mais um pouquinho para ajudar em casa. Às vezes tinha até dois casamentos no mesmo dia. Para ganhar a confiança do patrão eu demonstrava interesse, cuidava do equipamento, verificava as baterias um dia antes, mas só isso não bastava, eu tinha que trazer resultados (fotos boas). Mais uma vez, dei o melhor de mim. Não gosto nada de ficar olhando para atrás, o que passou, passou. Quando olho e volto para o passado onde tudo começou, tenho uma sensação que fiz a coisa certa, e que valeu a pena.

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